quarta-feira, 11 de junho de 2008

ESSÊNCIA


Sinto no ar um perfume
que me devolve a infância
refletindo na alma a menina de outrora
o gosto cheiroso do café moído da antiga fábrica
percorrendo o ar em movimento

Espalhando o aroma em deliciosa bruma
por toda a cidade...
nas papilas,na língua a sensação de prazer
deleite de um tempo adormecido

O regresso à escola,amigos,colegas,professores
aquele entusiasmo com a merendeira
o uniforme,o sapato e a pasta
exalando o cheiro de couro e caderno novo
o estojo com lápis coloridos...

Que delicia este mundo
de tantas sensações ,aromas e cores
o prazer de misturar as tintas
pintar ou simplesmente sujar os dedos
escrever um nome ,riscar, rabiscar

Brincadeiras singelas
devolvendo o sentido à vida
prenúncio de uma nova estação
como a folha de outono a voar pelo jardim
tempo que fluía a vida

Oscilação de outrora flutuando nas tardes
nas noites tecendo sonhos
ao alvorecer suavizando os traços
gris e tristes da próxima estação.

(Angela Warlet)

terça-feira, 10 de junho de 2008

RESQUÍCIO

Lá fora a chuva
cá dentro a correnteza
rio intumescendo as veias
pulsando a cada segundo

Descompassada emoção
vazante na alma
liquefazendo o instante
alucinação


Memória da pele
maresia
ar de sargaço
absorvendo a dor

Na imprecisão do momento
ondulações de um tempo
quebrando a rocha da saudade.



( Ângela Warlet )




CÁLICE II


Esse frêmito

impulso
labareda na relva escura
irradia-se em nuvens
na estrada sinuosa de meu corpo


Cristalino sentimento
transborda no cálice
o gosto
exalando o aroma

Pactuo com as horas
eternizando o momento
fusão
ao roçar da chama em teu cerne

Botão
seiva fluindo
irrigando
este solo arável em nós

Simbiose de desejo
transpondo estações
a centelha
marca lavrada

amor.


(Ângela Warlet )



sábado, 31 de maio de 2008

um poema a dez ou doze mãos feito em 5 minutos


fruto da manhã
stela
alba posta em ramos
só
espera por ti

conjunto sideral

o mosaico de estrelas
concêntrica luminosidade
desiderato
destino em vórtices,formas, signos vãos
sortilégios gravados
na escuridão do infinito

solta no espaço

nem sempre
teu fino brilho
tem seu lugar

balburdia

ouço vozes
silêncio
balbucios
buzina alerta

o tempo corre

um olhar em vigilia

vago
vazio de desejo
vara a noite
insone
inquieto
desassosegado


sábado, 24 de maio de 2008

exeperimentos com a meia sextina

SEXTINA É um poema de forma fixa inventado no século XII,provavelmente pelo trovador Arnaut Daniel. A sextina éum espécime típico do know-how poético da Provença. A forma da sextina se caracteriza por uma “magreza” de expressão no que respeita aos recursos disponíveis aopoeta. A extrema limitação de meios e a estrutura recorrente, criam uma série de desafios a imaginação do poeta.
Vejamos: a sextina ortodoxa dispõe-se em seis estâncias de seis versos (aqui experimentamos apenas três estrofes, por isso a "meia sextina" do título) e um terceto final, espécie de envoi. Os versos terminam não em rimas propriamente ditas, mas em palavras-rima que obedecem a uma distribuição padronizada: a última palavra-rima de cada estância se repete no final do primeiro verso da estância seguinte. As palavras derradeiras dosversos da primeira estância recorrem, noutra ordem, sempre no fim das demais estâncias.

1

Quando a morte tocar a vida
Fará deslocar a pedra
E mudará o rumo do jogo
Do corpo inerte, coberto de musgo
Sobrará arrependimento
E buscará o caminho do mar

Quando a noite mergulhar no mar
E não encontrar nem vida,
Nem corpo, nem musgo,
Mudará o revés do jogo
Destruirá de vez com a pedra
Dogmática do arrependimento

E sem mais arrependimento
Libertará a alma da pedra
Mudará o resto do jogo
Livrando-a também de todo o musgo
Aí sim, alcançará a vida
Quando o dia mergulhar no mar

(Sinara Marques)
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2

volta e meia revôlta vida
caminho marcado a pedra
troca, veia e jogo
verde, terra e musgo
as costas vincadas do arrependimento
funduras azuis de mar

nas azuis funduras do mar
como sói acontecer na vida
às vezes se encontra o musgo
colado aos dados do jogo
outras vezes se acha só pedra
ou frágil taça breve de arrependimento

se sorvo o quanto do arrependimento
rolando na vida feito pedra
sorte e azar figuram no jogo
me esparramar aprendo, feito musgo
escorrendo pelos caminhos da vida
vai e vem, ondas do mar

(Deisi Beier)

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3

É tarefa de toda uma vida
Sermos em tudo diferente da pedra
Mais do que a consciência o desejo conduz o jogo
Resvalando na sua escorregadia fluidez de musgo.
Estamos a todo o momento refém do arrependimento
Prestes a ser engolido pelo mar.

Cambiante e fluida a imagem do mar
Trágica e épica como a Vida
Ora sombrio e traiçoeiro como musgo
Ora, como parte de um indecifrável jogo,
Som e fúria de suas ondas no ar e na pedra
Fonte de dores, amores e arrependimento.

Libertar-se das cadeias do arrependimento
Sair da posição catatônica de pedra
Não é tudo, mas é parte importante do jogo.
Tropeçar na pedra drumondiana, resvalar no musgo
E levantar para continuar a trajetória de uma vida
Que os poetas procuram, bem ou mal, emoldurar com a imagética do mar.

(Jorge Alberto Benitz)

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4

pensamentos cheios de vida
um caminho uma pedra
brinca o tempo suave jogo
brisa calma de verde musgo
arrepio pende sem arrependi mento
mergulho inteiro eu só o mar


tranqüilo inquieto lambe o mar
te observa a vida
estende a mão sobre o lado musgo
doce menino não conhece o jogo
fria pedra arre pendi mento


sem nenhum arrependimento
rola o tempo rola a pedra
viciou-se sentir musgo
renasce quase morta a vida
reflete puro o mar

(Jackeline Gay)

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5

Na descoberta da vida
Sigo o destino da pedra
Desafio num jogo
Onde o musgo
Do tempo do arrependimento
Foi sepultado no mar



Navego por este mar
Que me devolve à vida
Tento extrair a tempo o musgo
Com passos seguros como num jogo
Para não escorregar na pedra
Obscura do arrependimento



Chega um tempo sem arrependimento
Talhado na pedra
Teu nome faz parte do jogo
A rolar soltando o musgo
Temporário da vida
No fundo do mar.


(Ângela Warlet)

domingo, 20 de janeiro de 2008

Poemas de Berenice Sica Lamas

paisagem em preto e branco, Rosa Marques verbavisual


O curso A precisão do Impreciso tem agora a sua versão virtual. A poeta Berenice Sica Lamas, desde a Itália, faz oficina comigo. A experiência está sendo bastante interessante, e como pequena amostra deste nosso diálogo, aí vão alguns poemas inéditos da autora de Ampulheta (2007,http://www.casaverde.art.br/):



Terça


cortinas vermelhas
filtram a
claridade do sol
através de antigos vidros

o quarto é banhado
de delicado rosado

eu, que prefiro tons
azuis verdes violetas

me perco
nesta floresta
cor-de-rosa


Quarta

Carissima
sou linha ininterrupta
interrompida
desculpa a cara fechada
continuo verde e violeta
livros se acumulam e eu me despedaço
um pouco aí, um pouco cá
porem com dois pés na terra
aliás, a terra aqui também não vai bem
de saúde
n’água peixes morrem
uma coisa é certa: esqueci os desafetos
é mais saudável para o fígado
inquietude desassossego
presentes no cotidiano
de minha cadeira vejo o mundo
hoje não tenho conselhos
esta fazendo um ano que cheguei
a outro centro de gravidade
saudade de nosso céu
beijos
Arcobaleno


Quinta



crianças se revoltam
no parquinho
lutam para se livrar das mães
opressoras

passantes cumprem seu papel e
passam
pássaros não voam às estrelas
na tosca aldeia

e o pinheiro
adentra galhos
ao shopping
dio mio, árvores
aderindo ao consumo?

Berenice Sica Lamas, 2008


sábado, 15 de dezembro de 2007

sem segunda chance, foi muito bom

Palavraria – Livraria-Café convidou:
Sarau de encerramento
do curso-oficina

POESIA: A PRECISÃO DO IMPRECISO
Ronald Augusto

Sexta-feira dia 07 de Dezembro, às 19h30min
Poemas, comentários e canções
nas vozes de:

Renato Golgo

João Pedro Wapler

Daniela Montano

Isolde Bosak

Évelyn Bisconsin

Deisi Beier

Jaime Medeiros Jr

Sinara Marques

Érika Almeida

Jacqueline Gay

Paulo Viegas